sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Melhor: Pânico 4 ridiculariza terrores recentes para mostrar como se faz (Pipoca Moderna)

Onze longos e sangrentos anos. Foi o tempo que o público teve que esperar até que Wes Craven recobrasse o ânimo – e recebesse uma proposta polpuda o bastante – para retomar sua franquia “Pânico”, que tanto fez a alegria da galera lá pelo fim dos anos 1990. E se você é da turma que adorava ver Sidney quase-morrendo, enquanto dava uns berros no cinema, pode comprar a pipoca e se jogar: “Pânico 4″ deve compensar a espera.

Craven é espertinho. Vamos admitir: o cara revolucionou o gênero suspense/terror com vários clássicos – “Aniversário Macabro” (1972), “Quadrilha de Sádicos” (1977), “A Hora do Pesadelo” (1984) – , mas causou seu maior impacto com o primeiro “Pânico” (1996). E fez isso de uma forma bem divertida: primeiro, retirou do filme todo o aspecto trash que era imperativo em produções que iam da série “Sexta-Feira 13” até coisas como “A Volta dos Mortos-Vivos” (1985).
Não que o trash fosse ruim. Mas era meio indigesto pra um público que, até então, ia ao cinema pra ver “O Rei Leão” e “Gasparzinho”. Foi preciso menos intestinos de mentirinha e mais sustos de verdade, além de uma produção minimamente cuidadosa, pra fazer tudo parecer bem feitinho. E deu certo. “Pânico” virou filme que lotava cinemas de shopping centers – bem diferente da maioria de seus companheiros de gênero dos anos 90.

Aí veio a segunda sacada: sabendo que um assassino vestido com uma capa e uma máscara era algo um tanto ridículo, principalmente em se tratando de um assassino cuja arma principal é um faca, Craven e seu roteirista, Kevin Williamson (criador das séries “Dawson’s Creek” e “The Vampire Diaries”), fizeram como ele e vestiram a carapuça, assumindo esse ridículo. Fizeram de “Pânico” um “Shrek” dos filmes assustadores – muito antes de “Shrek” existir. E desde que a nouvelle vague ensinou Hollywood a brincar com gêneros, foram poucas as vezes que isso deu tanto certo quanto na (até então) trilogia “Pânico”.
A metalinguagem foi tão bem sucedida que passou da simples referência para uma trama em que há literalmente a produção de um filme – o mote do roteiro de “Pânico 3″. Tudo isso numa série em que o assassino faz questão de perguntar às vítimas: “Qual o seu filme assustador predileto?”

Só que “Pânico 3″, em 2000, parecia ser o fim da série. O próprio Wes Craven afirmou veementemente que não faria continuações. Até que no ano passado surgiram os rumores: “Pânico 4″ estava sendo produzido. E o desafio era grande: há 11 anos, a franquia era o supra-sumo em seu gênero mas, agora, depois das adaptações do terror japonês, da série “Jogos Mortais” e da Internet (nem DVD existia direito quando o primeiro “Pânico” chegou às telonas!), a coisa seria bem diferente. Principalmente se levarmos em conta que a franquia “Todo Mundo em Pânico”, sátira escrachada baseada nos filmes de Craven, tornou-se tão famosa quanto os próprios filmes. Ou mais.
Pois bem. Craven manteve-se fiel à sua fórmula e, mais uma vez, assumiu o ridículo, por assim dizer, do que estava fazendo. Como um dos personagens diz: “A tragédia de uma geração é a piada da geração seguinte”. E hoje tem marmelada? Tem sim, senhor! O filme já abre criticando seus “concorrentes” e deixando claro a que veio: o bom e velho “Pânico” está de volta. E, se ele não é seu filme assustador predileto, vai fazer de tudo para ser, alternando cenas genuinamente desesperadoras e apreensivas com momentos constrangedoramente absurdos.

É preciso ter pelo menos uma pequena noção dos filmes anteriores para entender tudo que acontece em “Pânico 4″. Sidney Prescott (a mesma Neve Campbell do primeiro, segundo e terceiro filmes) volta à Woodsboro, sua cidade natal, para lançar o livro em que conta como sobreviveu à tragédia que matou basicamente todo mundo que ela conhecia quando jovem. Além dela, sobraram sua ex-inimiga Gale (Coutney Cox) e o agora xerife Dewey (David Arquette).
E é claro que se Sidney volta, um novo assassino vem atrás, e daí pra frente não é preciso conhecer a franquia para aproveitar: é o típico filme de serial killer, no estilo eternizado, justamente, pela série “Pânico”.
Para quem sente saudade dos anos 1990, a fotografia de baixa profundidade de campo e iluminação sombria, além da falta de filtros na contra-luz, vai trazer uma sensação nostálgica de estar assistindo ao filme num VHS, como é bem provável que você tenha feito em algumas das três primeiras versões. Mas pára por aí.
Como diz o slogan do filme, “Nova década, novas regras”. E dá-lhe clichês fresquinhos a serem explorados, indo da câmera-amadora-na-mão até o filme-dentro-do-filme, passando por uma piadinha tão boa quanto infame com Robert Rodriguez.

“Pânico 4″ vem para revitalizar e integrar uma série que – quem diria! – virou cult. Mérito de Craven e Williamson, por refrescarem o gênero que se propuseram a trabalhar, dando-lhe nova cara. Mas também vem para divertir, deixando o público pra cima até com a trilha dos créditos finais, mesmo sendo um filme de terror sobre assassinatos. Mérito de seus “concorrentes” de gênero, que, no fim das contas, só servem mesmo para chacota.

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