domingo, 28 de agosto de 2011

Crítica: "Planeta dos Macacos - A Origem", por Pablo Villaça


Ficheiro:Rise of the Planet of the Apes poster promocional.jpg
O sucesso de Planeta dos Macacos: A Origem reside no sucesso de seu protagonista como herói (ou anti-herói) viável na mente do espectador. O problema é que este protagonista é Cesar, um chimpanzé completamente criado em computador a partir da interpretação de Andy Serkis (Gollum, King Kong) diante dos equipamentos de motion capture: se você acreditar em Cesar e em seus dilemas, acreditará no projeto; caso contrário, a experiência se revelará vazia e até mesmo entediante. A boa notícia é que, na maior parte do tempo, o chimpanzé digital funciona perfeitamente; a má é que os personagens humanos, não – e, assim, quando aquele não está em cena, Planeta dos Macacos se torna... vazio e entediante.

Escrito por Amanda Silver e Rick Jaffa (sempre inspirados no livro de Pierre Boulle, claro), o roteiro tem início ilustrando a captura da símia Olhos Brilhantes (uma de muitas referências à série original), o que já estabelece a relação de antagonismo/submissão entre humanos e macacos que dominará a narrativa. A partir daí, somos apresentados ao cientista Will Rodman (Franco), que está prestes a desenvolver um vírus que poderá curar o mal de Alzheimer – doença que afeta seu pai, o músico Charles (Lithgow). Durante os testes com Olhos Brilhantes, porém, Will percebe que o tratamento aumenta incrivelmente a inteligência da cobaia, que passa esta característica ao filhote Cesar antes de ser morta num incidente no laboratório. A fim de evitar que o chimpanzé seja sacrificado, o cientista adota-o, percebendo, com o tempo, que suas habilidades cognitivas continuam a crescer exponencialmente, até que um confronto com um vizinho tira o animal de suas mãos e leva Cesar a abandonar a docilidade habitual.

Usando a relação entre humanos e macacos como uma alegoria óbvia do preconceito e de todo tipo de intolerância direcionada a minorias, os roteiristas também se mostram pouco sutis ao usar a agressividade dos homens como mecanismo iniciador da revolta dos símios, esforçando-se para demonstrar que são nossas piores características enquanto espécie que acabam por criar nossos antagonistas. Aliás, é curioso que Silver e Jaffa exibam mais sensibilidade e inteligência ao desenvolverem Cesar, já que seus personagens humanos jamais passam da caricatura – e a relação entre a veterinária Caroline (Pinto) e Will é apresentada de forma tão rasa que, mesmo que fiquem juntos por anos, jamais temos a impressão de que formam um casal de verdade ou mesmo de que tenham grande intimidade (e a impressão deixada pela garota é tão fraca que tive que pesquisar o nome da personagem antes de escrevê-lo aqui). Por outro lado, James Franco e John Lithgow conseguem criar uma dinâmica sensível como pai e filho – e o primeiro acerta ao levar o papel tremendamente a sério, evitando os exageros de interpretação (alguns beirando o camp) que marcaram suas participações em filmes como os da trilogia Homem-Aranha e adotando uma abordagem dramática como as adotadas em 127 Horas e Milk, já que qualquer indício de deboche derrubaria uma narrativa já tão perigosamente tola como a de Planeta dos Macacos.

Criados pela Weta Digital de Peter Jackson, aliás, os símios aqui vistos demonstram duas coisas: 1) que a empresa continua a executar um bom trabalho na animação de personagens digitais e 2) que o público já evoluiu a ponto de não considerar os resultados tão impecáveis quanto julgava em King Kong ou O Senhor dos Anéis. Assim, os macacos, embora verossímeis, jamais soam totalmente convincentes – e quando Cesar salta pela casa de Will, percebemos certa falta de peso, como se as leis da gravidade não estivessem operando corretamente durante seus movimentos. Por outro lado, as expressões faciais e corporais do protagonista (porque César é o protagonista do longa), capturadas graças à performance sensível de Andy Serkis, são responsáveis por torná-lo tridimensional como personagem e, consequentemente, importante para o espectador: observem, por exemplo, sua contrariedade ao usar a coleira, o medo que exibe ao ver-se sozinho num ambiente desconhecido ou o espanto que sente diante dos próprios impulsos de violência e notarão todo o trabalho de Serkis em evidência.

Mas se falha aqui e ali, a Weta certamente se sai espetacularmente bem em um detalhe importantíssimo de suas criaturas e que antigamente representava um dos maiores obstáculos dos personagens digitais: os olhos. Além de exibirem movimentos repletos de sutilezas e significados (novamente responsabilidade de Serkis e seus companheiros de elenco), os olhos dos símios exibem brilho e vitalidade fundamentais para convencer o público de que há um ser vivo por trás deles – e, neste sentido, a ideia de modificar a cor e aumentar o reflexo da íris dos macacos “infectados” é perfeita, já que serve simultaneamente para diferenciá-los dos parentes normais e para torná-los mais... humanos.

Dirigido pelo inglês Rupert Wyatt (do fraco The Escapist, que também contava com Brian Cox e Seu Jorge), Planeta dos Macacos: A Origem compensa o fracasso em desenvolver seus personagens através de uma montagem eficiente que se destaca particularmente nas boas elipses e nas sequências de ação – e o clímax na ponte Golden Gate é tenso e ágil na medida certa, mantendo o ritmo frenético sem, com isso, impedir que compreendamos a geografia da cena e a distribuição dos envolvidos. Além disso, Wyatt e seus roteiristas claramente se divertem incluindo inúmeras referências à história da série, desde o anúncio da missão espacial que levaria o astronauta Taylor (Charlton Heston) ao planeta “original” até o plano que traz Cesar brincando com uma miniatura da Estátua da Liberdade, passando pelos nomes de vários personagens e por diálogos inteiros repetidos na íntegra (“Tire suas patas imundas de mim, seu macaco sujo e maldito!”).

É uma pena, portanto, que aqui e ali o filme mergulhe na tolice (como ao trazer o vizinho de Will como o sujeito mais chato/azarado do mundo) ou na pura caricatura (reparem a expressão símia do tratador “bonzinho” que cuida dos macacos). Ainda assim, é suficientemente bem realizado para não envergonhar a série clássica (especialmente o primeiro e o terceiro capítulos) e ainda nos apresenta àquele que, ao lado de Zira e Cornelius, talvez seja um de seus personagens símios mais tocantes, complexos e memoráveis.

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